O Governo moçambicano confirmou esta Sexta-feira (29), em Maputo, que o Estado passará a assumir os custos da permanência das tropas do Ruanda destacadas em Cabo Delgado, no âmbito do combate ao terrorismo. No entanto, o executivo continua sem revelar quanto será gasto nem por quanto tempo os militares ruandeses permanecerão no país.
A informação foi divulgada durante o briefing semanal do governo, no momento em que chega ao fim o financiamento da União Europeia à missão militar ruandesa em Moçambique.
Segundo o executivo, a continuidade da presença das forças ruandesas visa garantir a manutenção da segurança em Cabo Delgado e permitir a reorganização das Forças de Defesa e Segurança (FDS). Apesar disso, o Governo evitou avançar detalhes sobre os encargos financeiros que o Estado terá de suportar.
Até aqui, os custos operacionais da missão eram financiados por meio de um pacote de cerca de 40 milhões de euros disponibilizado pela União Europeia. Com o término desse apoio, Moçambique passará a financiar integralmente as despesas associadas à presença militar de Ruanda.
A falta de transparência em torno do acordo continua a gerar críticas de analistas e especialistas em governação.
O académico e presidente do Centro para Democracia e Desenvolvimento (CDD), Adriano Nuvunga, afirmou à Integrity Magazine que persistem dúvidas sobre os termos da cooperação entre Moçambique e Ruanda.
“Há ainda uma dimensão diplomática e bilateral relacionada com o aprofundamento das relações entre Moçambique e Ruanda. No entanto, o elemento que continua a gerar mais dúvidas é precisamente a falta de transparência. Porque quanto menos informação existir sobre custos, acordos, benefícios e compromissos associados, maior será a percepção pública de que podem coexistir interesses adicionais para além da segurança”, afirmou.
Também o pesquisador moçambicano João Feijó questionou a falta de clareza sobre os recursos necessários para sustentar a operação militar e humanitária em Cabo Delgado.
“A informação disponível sobre os recursos humanitários necessários continua vaga, levantando dúvidas sobre a capacidade e a vontade da comunidade internacional em suportar esta crise”, afirmou.
Feijó considera ainda que Moçambique enfrenta uma forte dependência externa no sector da defesa.
“O país é militarmente dependente, e a recuperação dos territórios, bem como a manutenção da segurança actual, parecem depender inteiramente do apoio internacional”, alertou.
As tropas ruandesas estão destacadas em Cabo Delgado desde 2021 e têm sido apontadas pelo Governo como fundamentais na recuperação de várias áreas antes ocupadas por grupos terroristas. Apesar disso, os termos financeiros, estratégicos e diplomáticos da continuidade da presença militar ruandesa no país continuam por esclarecer. Questionado sobre os custos e os detalhes do acordo, o Governo remeteu esclarecimentos ao Ministério da Defesa Nacional.
