Situção de Cabo Delgado pode se assentar na velha história da biblía onde a expectativa era de uma “terra que mana leite e mel” que fazia referência à Canaã descrita na Bíblia como um local de grande abundância, fertilidade e provisão divina prometido a Abraão e seus descendentes. A metáfora simboliza um lugar rico, cultivável e produtivo, contrastando com o deserto, e hoje um campo de batalhas interminaveis que se “assemelha” a Cabo Delgado e suas riquezas mas que virou um campo de sofrimento para o povo por via da guerra diga-se terrorismo sem fim a vistra. Abundância: O leite representa a riqueza pastoril (criação de gado) e o mel refere-se à doçura dos frutos e à fertilidade da terra. De uma promessa divina que indica a herança hoje trasformou-se em sacrificio que exige muito trabalho para a sobrevivencia.
Com o fim da época chuvosa, sinais de recrudescimento da insurgência voltam a ser registados em Cabo Delgado, reacendendo preocupações sobre a estabilidade da região e o impacto que a insegurança continua a ter no prometido desenvolvimento económico local. No centro deste cenário está o projecto de liquefação de gás natural (GNL) na península de Afungi, a sul do distrito de Palma, que cada vez mais assume características de uma autêntica fortaleza.
A área do megaprojecto passou a ter acesso exclusivamente por via marítima e aérea, sob vigilância apertada das forças de segurança ruandesas destacadas para a protecção das instalações. O bloqueio do acesso terrestre altera profundamente os planos iniciais do projecto, que previam a participação significativa de empresas locais e a utilização de Palma e Mocímboa da Praia como bases logísticas para empreiteiros e subempreiteiros.
Na prática, este novo modelo reduz drasticamente as oportunidades de emprego e de prestação de serviços para empresas moçambicanas, num momento em que as populações locais aguardavam que a exploração do gás do Rovuma se traduzisse em trabalho e dinamização da economia regional.
Paralelamente, as multinacionais ExxonMobil e TotalEnergies introduziram critérios mais rigorosos para a contratação de parceiros e prestadores de serviços. Segundo revelou a publicação Africa Intelligence (23 de Fevereiro), as empresas deixaram claro que empreiteiros e subempreiteiros não poderão manter ligações com “Pessoas Politicamente Expostas” (PEP) categoria que inclui altos funcionários do Estado, figuras políticas e familiares directos.
A medida procura reduzir riscos reputacionais, limitar custos associados à interferência política e evitar práticas de corrupção frequentemente associadas a grandes projectos de recursos naturais. No entanto, a decisão atinge directamente sectores do sistema económico ligado ao partido no poder, a Frelimo, cujos operadores contavam usar influência política para garantir contratos lucrativos.
Entre os casos citados está o da Tsebo Facilities Management (TFM), empresa que esperava beneficiar de contratos ligados ao projecto de Afungi. Um dos seus proprietários é Pascoal Mahikete Mocumbi, filho do antigo primeiro-ministro Pascoal Manuel Mocumbi, que desde 2020 exerce igualmente funções como director comercial da Empresa Nacional de Hidrocarbonetos (ENH) entidade estatal que participa no projecto do gás.
Outro accionista da TFM é a empresa Videre, gerida pelos irmãos Mamadou Chivambo Mamadhusen e Dingane Abreu Mamadhusen, considerados próximos da Frelimo e filhos da antiga ministra dos Negócios Estrangeiros e do Ambiente, Alcinda Abreu. Curiosamente, a própria TFM é actualmente responsável pelo fornecimento de refeições à Força-Tarefa Conjunta ruandesa e moçambicana encarregada de proteger o complexo de Afungi.
Enquanto o sector do gás avança com forte controlo externo e pouca integração local, outra oportunidade de geração de emprego em Cabo Delgado parece igualmente estar a escapar ao país. Trata-se da cadeia de valor associada à exploração de grafite em Balama, uma das maiores reservas mundiais deste mineral essencial para a produção de baterias de veículos eléctricos.
A mineradora australiana Syrah Resources assinou recentemente um acordo com a empresa canadiana NextSource para exportar o grafite para Abu Dhabi, onde o material será transformado em ânodos para baterias, posteriormente enviados para o Japão.
Especialistas sublinham que a produção de ânodos não exige tecnologia altamente complexa e poderia, em teoria, ser instalada em Cabo Delgado, criando emprego e valor acrescentado local. No entanto, até ao momento, não existem iniciativas concretas para estabelecer este tipo de indústria na região. Assim, entre o gás do Rovuma e o grafite de Balama, Cabo Delgado continua a assistir à exploração de recursos estratégicos de escala global, enquanto as oportunidades de emprego e industrialização local permanecem limitadas um contraste que alimenta frustrações numa província que esperava transformar riqueza natural em desenvolvimento real.
