MAPUTO – Mais de 60% das crianças moçambicanas enfrentam graves limitações no seu desenvolvimento. O dado, foi revelado em 2025 pelo Ministério da Saúde (MISAU), expõe uma realidade estrutural alarmante: das mais de 16 milhões de crianças no país, cerca de 13 milhões vivem em situação de pobreza, segundo o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef).
Por: Carlitos Pedro
Os obstáculos envolvem taxas críticas de desnutrição crónica, acesso restrito a cuidados de saúde e severas deficiências na educação pré-escolar, num cenário agravado por recorrentes choques climáticos. Em um workshop que teve lugar em Maio de 2025 em Maputo, Marla Amaro, chefe do departamento de Nutrição do MISAU, disse apenas 39% das crianças entre os dois e os cinco anos apresentam um nível de desenvolvimento adequado em termos de saúde, aprendizagem e bem-estar psicossocial, sendo a província de Nampula a mais afetada. Na mesma ocasião, chefe de Saúde e Nutrição do Unicef em Moçambique, Maaike Arts, reconheceu avanços na redução da mortalidade infantil, mas deixa um aviso claro de que as profundas disparidades entre as zonas urbanas e rurais são um alerta que não pode ser ignorado.
Especialistas defendem que a janela que vai da conceção ao segundo ano de vida é o período mais crítico para reverter este cenário. O activista social Milton Mujovo explica que, “durante os primeiros 1.000 dias, o cérebro desenvolve-se ao seu ritmo mais rápido, sendo duas vezes mais ativo do que o de um adulto”. Segundo Mujovo, as conexões neurais formadas nesta fase determinam a saúde física, mental e a capacidade de aprendizagem ao longo da vida, o que exige o reforço imediato de cuidados pré-natais, partos assistidos e suplementação nutricional.
Essa urgência biológica esbarra, contudo, na desigualdade geográfica e económica do país. O jornalista e investigador Duarte Sitoe aponta que, “enquanto nas zonas urbanas 53% das crianças entre os dois e os quatro anos atingem um desenvolvimento adequado, no meio rural esse número cai para 33%. Esta assimetria liga-se diretamente à condição financeira, já que apenas 27% das crianças das famílias mais pobres estão no caminho certo, em contraste com 63% nas famílias com melhores condições”
Além dos fatores económicos, o ambiente emocional desempenha um papel crucial. Natália Tembe, educadora de infância no Centro Infantil Smart Kids, destaca o impacto da saúde mental das mães com base em dados estatísticos. Quando as cuidadoras não sofrem de depressão ou ansiedade, 42% dos filhos desenvolvem-se bem, mas a taxa cai para quase metade se a mãe enfrentar quadros graves de instabilidade mental. Tembe alerta ainda para a exclusão das crianças com dificuldades funcionais, onde apenas 29% alcançam o desenvolvimento esperado.
Para especialista materno-infantil Sérgio Marques, “apesar de avanços políticos, como a Estratégia Nacional para o Desenvolvimento da Primeira Infância, o país precisa de ações mais concretas e coordenadas. O caminho para inverter este cenário exige a expansão urgente do planeamento familiar para reduzir a gravidez precoce, o reforço da suplementação de micronutrientes para grávidas e a massificação de uma educação pré-escolar de qualidade que priorize as comunidades rurais, garantindo que cada criança frequente, pelo menos, um ano de ensino pré-primário”.
Para viabilizar este nível de investimento e garantir uma sociedade futura sã, torna-se imperativo redesenhar a responsabilidade social do setor privado. É fundamental que os grandes mega-projetos em Moçambique passem a canalizar uma percentagem do seu capital diretamente para o alicerce humano, investindo na construção de infraestruturas infantis e na formação de educadores de infância, e não apenas no ensino primário tradicional. O futuro do país constrói-se a partir da raiz.
