A escassez persistente de divisas em Moçambique terá conduzido ao encerramento de mais de 500 empresas e à eliminação de cerca de 15 mil postos de trabalho, segundo um estudo divulgado esta terça-feira (26) pelo Centro de Integridade Pública (CIP), que alerta para efeitos macroeconómicos prolongados associados ao actual contexto cambial.
De acordo com a Lusa, a conclusão consta da análise intitulada Impactos Macrofiscais Associados à Escassez Persistente de Divisas e à Taxa de Câmbio em Moçambique (1990-24), apresentada em Maputo e baseada em entrevistas realizadas a gestores empresariais e associações representativas do sector privado.
Segundo Tereza Boene, investigadora do CIP, a motivação central do estudo resulta da persistência das dificuldades de acesso a moeda estrangeira e da manutenção de uma taxa de câmbio considerada desalinhada face às condições efectivas do mercado.
De acordo com os dados recolhidos, as restrições no acesso às divisas reduziram, aproximadamente, em 40% a capacidade de importação das empresas, condicionando directamente os níveis de produção e a actividade económica em diversos sectores. “Dos dados a que tivemos acesso, mais de 500 empresas encerraram”, afirmou Tereza Boene durante a apresentação do estudo, acrescentando que o impacto laboral associado terá resultado na perda de mais de 15 mil empregos.
O relatório estima ainda que os efeitos económicos se estendem ao nível dos agregados familiares, apontando para cerca de 75 mil pessoas indirectamente afectadas, considerando a dimensão média das famílias moçambicanas.
Segundo o CIP, a limitação no acesso à moeda estrangeira está igualmente a pressionar o rendimento disponível das famílias e a reduzir os níveis de consumo, com efeitos particularmente expressivos junto dos grupos economicamente mais vulneráveis. A análise traça ainda um retrato das tendências macroeconómicas observadas entre 1990 e 2024, destacando sinais de desaceleração do crescimento económico, um aumento sustentado da inflação, estimada em cerca de 9% ao ano, e uma trajectória gradual de depreciação do metical.
Entre as principais conclusões, o estudo sublinha o papel determinante da taxa de câmbio sobre variáveis macroeconómicas fundamentais, indicando que alterações cambiais produzem efeitos directos sobre os preços, sobre o crescimento económico e sobre a trajectória da dívida pública.
Os resultados empíricos apresentados sugerem que uma variação de 1% na taxa de câmbio poderá traduzir-se numa redução de aproximadamente 0,65% no crescimento económico e num aumento da inflação na ordem de 0,3%, evidenciando, segundo os autores, a elevada exposição da economia nacional a choques externos.
Face a este cenário, o CIP defende um conjunto de medidas estruturais orientadas para reduzir a dependência externa da economia, com destaque para o reforço da produção interna, da diversificação da base económica, a aceleração do processo de industrialização e a expansão da capacidade exportadora.
A organização considera igualmente prioritário aumentar o investimento em infraestruturas produtivas, energia e transporte, entendendo que estes sectores serão determinantes para sustentar o crescimento económico e aliviar a pressão estrutural sobre a procura de divisas. (LUSA com Diário Económico)
